Que seja raro os dias de dor.
Wesley Soares.   (via incapacitado)

(Source: resumindoempalavras, via prasempreinverno)


Eu te prometo, eu me viro do avesso só pra te abraçar. Eu quero me enrolar nos teus cabelos. Abraçar teu corpo inteiro… Morrer de amor, de amor me perder.
Caetano Veloso.  (via romantizar)

(Source: drunkrascal, via romantizar)


Eu também preciso te ver senão vou morrer de amor insatisfeito de desencontro de saudade com sede insaciada.

- Caio Fernando Abreu

(via caiofernandoabreu)


E não sei o que dizer, Zézinho, não tô bem. Isso é uma coisa que eu posso dizer, tendo certeza dela. Mas é também uma coisa pela qual você não pode fazer nada, e de pouco adianta eu dizer. Ô, Zé, ando tão desorientado, já faz tempo. E me escondo, e não procuro ninguém, e fico mastigando a minha desorientação.

- Caio Fernando Abreu

(via caiofernandoabreu)


Segunda-feira: 

Tinha me esquecido dele até a hora de voltar para casa. Trabalhei muito o dia inteiro. Voltei cansado, com vontade de tomar banho e dormir. Ele me encontrou na porta do edifício. O nosso trato, disse. Eu disse ah, sim, e acompanhei-o até a praça. Ele caminha devagar, não parece perigoso como os outros. Não sei exatamente o que, mas existe nele qualquer coisa muito diferente.  Às vezes penso que vai ter uma tontura e cair. É quando fecha os olhos comprimindo uma das mãos contra a cabeça. Acho que sente fome. Pensei em convidá-lo para co mer comigo, mas desisti. Os vizinhos não gostariam. Nem o porteiro. Além disso o apartamento é muito pequeno e está sempre desarrumado porque a empregada só vem uma vez por semana. Anda sempre descalço, tem os pés finos como as mãos. Parece pisar  sobre folhas, não sei explicar, não existem folhas na praça. Não agora, só no outono. As unhas são transparentes. E limpas.

Quando estava terminando de desenhar, perguntei o seu nome, O meu nome não são letras nem sons — ele disse —, o meu nome é tudo o que eu sou . Quis perguntar que nome era, mas não houve tempo, ele já me estendia a folha de papel. Paguei e não olhei. Só vim olhar aqui em cima. Fiquei pe rturbado: não estou mais moço como ontem e anteontem. A cara que ele desenhou é a mesm a que vejo naquele espelho da portaria que sempre achei que deforma as pessoas. Coloquei o papel em cima da mesa, ao lado dos outros. Depois achei melhor pregar na pa rede do quarto, em frente à cama. Espiei pela janela, mas não consegui distingui-lo no meio dos outros.  

- Caio Fernando Abreu.


Terça-feira:

Quando saí, pela manhã, procurei por ele.  Queria convidá-lo para tomar a média comigo no bar da esquina. Mas não o vi. Ontem à noite fez frio. Ouvi dizer que eles dormem na praia. De madrugada fiquei pensando nele, estendido na areia sobre aquele casaco militar puído que ele tem. Senti muita pena e não consegui dormir. Foi difícil trabalhar hoje. Percebi que a  secretária tem as pernas peludas e o chefe está muito gordo. Sei que isso não tem importância, mas não consegui esquecer o tempo todo. De tardezinha, ele me esperou na esquina. Disse:  hoje é o quarto. Faltam três , eu respondi. E senti um aperto por dentro. Tem uns ol hos escuros que ficam fixos, parados num ponto, do mesmo jeito que as mãos no ar. A  calça está rasgada no joelho. Nunca o vi falar com ninguém. Os outros ficam sempre em grupo, falando baixinho, olhando com desprezo para os de terno e gravata como eu. Ele está sempre sozinho. E não me olha com desprezo. 

Terminou de desenhar e me ofereceu uma margarida junto com o papel. Eu nem tinha reparado que havia margaridas na pr aça. Para falar a verdade, acho que nunca tinha visto uma margarida bem de perto.  Ela é redonda. Não exatamente redonda, quero dizer, o centro é redondo e as pétalas são comp ridas. O centro é amarelo, cheio de grãos. As pétalas são brancas. Coloquei num c opo com água e um comprimido dissolvido dentro, disseram que faz a flor durar mais. O retrato é muito feio. Não que seja malfeito, mas é muito velho, tem uma expressão triste, cinzenta. Fiquei surpreso. Cheguei a sentir medo de me olhar no espelho. Depois olhei. Vi que é a minha cara mesmo. Acho que ele caprichou mais no primeiroporque não me  conhecia: agora que sou freguês pode me retratar como realmente sou. Percebi que  as vizinhas me observavam quando eu falava com ele.

 - Caio Fernando Abreu.


Quarta-feira:

O dia custou a passar. São todos tão pesados no escritório que o tempo parece custar mais a passar. Logo que os ponteiros  alcançaram as seis horas, apanhei o casaco e desci correndo as escadas. Esbarrei com  o chefe no caminho. Percebi que ele caminha mal por causa dos pés inchados. Fiquei olhando para os pés dele: não parece pisar folhas. Na rua, vi uma vitrine cheia de colares, pensei que ele gostaria de um. Achei que seria bobagem, o mês está no fim, o dinheiro  anda curto. Mas não me contive. Voltei e entrei na loja. A moça me olhou com uma cara estranha. É para minha filha , menti. Trouxe o embrulho pesando no bolso, com medo que ele não estivesse na esquina. Estava. De longe o vi, muito magro e alto. Baixei a cabeça fingindo preocupação. Ia passando por ele, mas me segurou pelo braço. Segurou devagar. Mesmo assim senti a pressão de seus dedos. Fazia frio. Per guntei a ele se não sentia frio. Disse:  não esse mesmo frio que o senhor sente. Não entendi. 

O desenho ficou muito feio. Coloquei-o na  parede, ao lado dos outros. Pareço cada dia mais velho. Acho que é porque nã o tenho dormido direito. Tenho olheiras escuras, a pele amarelada, as entradas  afundam o cabelo. Aperte i a mão dele. É muito fria. Faltam só dois. Descobri hoje que seus olhos não são completamente escuros. Têm pequenos pontos dourados nas pupilas. Co mo se fossem verdes. As vizinhas me observavam pelas janelas e falavam baixinho  entre si. Pela primeira vez deixei de cumprimentá-las.

- Caio Fernando Abreu



Quinta-feira:

Novamente não consegui dormir. Fiquei olhando os retratos na parede branca. E horrível a diferença entre eles, envelheço cada vez mais. Senti muito medo quando pensei no sétimo retrato. E fechei os olhos.  Quando fechei os olhos julguei sentir na testa o mesmo contato frio de sua mão na mi nha, ontem à tarde. Um toque frio e ao mesmo tempo quente, ao mesmo tempo forte e ao mesmo tempo leve. De repente lembrei do que ele disse no dia em que me deu a margarida.  Flor e abismo . Ou seria:  flor é abismo ? Não lembro. Sei que era isso. Não sei como tinha esquecido. Levantei para olhar a margarida. Continuava amarela e branca, redonda e longa. 

O dia no escritório foi desesperador. Errei várias vezes nos cálculos. Fui grosseiro com a secretária quando ela me chamou a atenção. Ela ficou ofendida, foi fazer queixa ao chefe. Temi que ele me chamasse em sua sala, mas isso não aconteceu. Pretextei uma dor de cabeça para sair mais cedo. Sentei  num bar e tomei duas cervejas. Quando botei a mão no bolso senti o peso do colar que não tive coragem de dar a ele. A cidade estava toda cinzenta, embora houvesse sol. As pesso as tinham medo no rosto. Dez para as seis, me levantei. Ele estava no mesmo lugar. Precisei me conter para não correr até ele. Tratei-o com frieza. Mas quando ele disse que o dia estava bonito hoje, não pude me segurar mais e sorri. Estava realmente um bonito dia, as pessoas todas alegres. Não olhei para ele, não quero que pense que sinto inveja ou qualquer coisa assim.  Trouxe o retrato embrulhado. Pela prim eira vez, o ascensorista não me cumprimentou nem abriu a porta do elevador. Pareço um cadáver no retrato. Não, é exagero. Estou mesmo muito abatido. Mas  não tenho aquela pele esverdinhada. Continua fazendo frio. Amanhã comprarei  uma cama, quero convidá-lo para dormir aqui nestas noites frias. Direi que a cama é de minha irmã que está viajando. Não tive coragem de dar a ele o colar, poderia pensar coisas, não sei. Amanhã não comprarei cigarros para poder pagar o último retrato.

- Caio Fernando Abreu.


Sexta-feira:

Trabalhei só pela manhã, hoje. Ao meio-d ia senti que não suportava mais aquele ambiente, aquelas pessoas pesadas como  elefantes esmagando os tapetes, aquelas máquinas batendo. Disse ao chefe que me sen tia mal. Ele foi compreensivo. Disse que notou que ando meio abatido. Tirei um vale , menti que era para comprar remédio. Entrei num cinema, assisti a duas sessões seguidas esperando as seis horas. No filme tinha um moço de motocicleta parecido com  ele, só parecido, descobri que não existe ninguém igual a ele. Lembrei da minha infância, não sei por que, e chorei. Fazia muito tempo que eu não chorava. Às seis horas, fu i até a praça. Mas ele nã o estava. Subi para tomar banho. Daqui a pouco vou descer de novo. Não sei por que, mas estou chorando outra vez. 

Mais tarde:

Aconteceu uma coisa horrível. É muito tarde e ele não veio. Não consigo compreender. Talvez tenha ficado doente, ta lvez tenha sofrido um acidente ou qualquer coisa assim. É insuportável pensar que esteja sozinho, com suas mãos paradas no ar, ferido, talvez morto. Chorei muitas vezes olhando a margarida que ele me deu. Logo hoje que ia desenhar o último retrato, que eu ia dar a ele o colar, convidá-lo para dormir aqui, para comer comigo. Acabei de tomar  três comprimidos para dormir, estou me sentindo amortecido. Amanhã talvez ele venha.

- Caio Fernando Abreu.